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sábado, 7 de fevereiro de 2015

Dança dos 7 Véus

Hijab: assim é a palavra “véu” em árabe, e significa “o que separa duas coisas”.
Separa o conhecido do desconhecido. Não apenas um enfeite, um acessório a mais, o véu mostra existir algo muito precioso que está escondido. Apenas o véu, de toda a indumentária usada na dança, permite uma interação tão sutil e suave do corpo com as vestes.
Reza a lenda que sua origem remota no antigo Egito, a Dança dos Sete Véus era executada pelas sacerdotisas em homenagem à Deusa Ísis, e representava um ritual de experiências sucessivas de auto-conhecimento até a ascensão espiritual. A sacerdotisa envolve-se com os sete véus, na seguinte ordem de cores: vermelho, laranja, verde, azul, lilás, branco. A veste por baixo dos véus é de cor clara. Os sete véus podem representar os sete chacras hindus (básico, esplênico, plexo solar, cardíaco, laríngeo, frontal e coronário). Ao longo da execução da “Dança dos Sete Véus”, retiram-se sucessivamente, com graça e mistério, os sete véus, cujas cores se relacionam ao arco-íris. A retirada de cada véu, plena de fascínio, sugere a revelação gradual da Luz.
De onde veio a simbologia para o número Sete? Lembremos que a Numerologia nasceu no Egito e veio ao ocidente através do grego Pitágoras. Para Pitágoras, tudo era número. O filósofo transmitiu sua sabedoria a seus discípulos, os quais guardavam absoluto sigilo sobre seu conhecimento. Passado muito tempo, os ensinamentos pitagóricos foram chegando até nós, como ruínas de um templo. O número Sete simboliza a combinação do Três (Céu) com o Quatro (Terra): o 3, representado por um triângulo, é o Espírito; o 4, representado por um quadrado, é a Matéria.
O Sete simboliza a totalidade dos mundos. A Dança dos Sete Véus eleva a bailarina em direção à plenitude do conhecimento.
Há também a versão de que inicialmente era dançada com 49 véus, passando mais tarde a ser realizada com apenas 7 véus, e era realizada em homenagem à Deusa Babilônica Ishtar ou Astarte, deusa do amor e da fertilidade. Segundo os babilônios, Tamuz, seu amado teria perdido a vida e foi levado para o reino dos mortos, e Ishtar, por amor, resolveu ir também para o reino dos mortos a fim de resgatá-lo. Determinada, Ishtar atravessou os 7 portais do mundo dos mortos, passando pelas 7 câmeras que haviam dentro de cada portal e lutando com os 49 demônios guardiões dos portais, Ishtar derrotou e dominou todos os demônios, deixando cair um de seus pertences durante as lutas em cada portal: um véu ou uma joia (cada um deles representando um de seus sete atributos: beleza, amor, saúde, fertilidade, poder, magia e o domínio sobre as estações do ano) Chegando assim, completamente nua ao final do último portal.
O véu representaria o que ocultamos dos outros e de nós mesmos. Ao deixar os véus Ishtar revela sua verdadeira essência e consegue unir-se a Tamuz, se tornando senhora do mundo dos mortos, e guardiã das chaves dos portais, que eram abertos somente para os iniciados.
No Egito, as sacerdotisas em seus templos, ofereciam a dança dos sete véus para a Deusa Isis, que dentro dela existe, e lhe dá beleza e força, representava um ritual de experiências sucessivas de auto-conhecimento até a ascensão espiritual, e era realizada em homenagem aos mortos. As sacerdotisas retiravam não só os véus, mas todos os adereços sobre o seu corpo, para simbolizar a sua entrada no mundo dos mortos sem apego a bens materiais. Os sete véus aludiam aos mistérios da deusa Isis.
Na Grécia a dança dos sete véus era realizada nos cultos da deusa grega Afrodite, a deusa do amor.
Com o tempo, a dança passou a ser realizada por bailarinas, que limitavam-se a retirar os véus, perdendo assim seu caráter espiritual, e ganhando uma conotação erótica, que permaneceu por muitos anos, até a redescoberta de sua verdadeira origem e significado.
Os sete véus simbolizam as sete cores do arco-íris, os sete planetas conhecidos na época da civilização egípcia antiga (que estão representados na dança como possuidores de qualidades e defeitos que influenciam o temperamento das pessoas), as sete notas musicais, os sete dias da semana, e os sete chacras (pontos energéticos do corpo humano). Na Dança dos Sete Véus, cada véu corresponde a um grau de iniciação, rumo á ascensão espiritual:
1º: Nesta iniciação a pessoa deverá trabalhar o domínio das tendências físicas inferiores básicas: purificação da alimentação, manutenção do corpo livre ao máximo de toxinas, transmutação da luxúria em amor, entre outras coisas. Neste estágio, a pessoa começa a tomar consciência de si mesma, como alma.    2º: Esta iniciação desenvolve o controle da camada emocional. Os desejos egoístas são substituídos pelo desejo de servir a humanidade e entra-se num trabalho intenso com a natureza emocional e psicológica. Aqui, o indivíduo toma consciência de quem é realmente, de todos os aspectos do seu eu, aceita-os e trabalha os aspectos negativos. A meta da segunda iniciação é fundir as metas e desejos pessoais, com as metas do Todo.      3º: Aqui o domínio do pensamento é o foco central. As formas de pensamento têm que se tornar claras e definidas, assim como os nossos propósitos ou desejos. Os pensamentos devem ser dirigidos para os planos superiores. O indivíduo precisa aprender a trabalhar com os bloqueios físicos, emocionais e mentais, não os negando, mas encontrando as suas raízes; e isso para muitas pessoas é a parte mais difícil.
4º: Existe um período de sacrifício e desapego profundos nesta iniciação, que também é chamada de "crucificação", e aqui a pessoa tem que trabalhar os medos, e as perdas. Neste estágio, a visão aumenta espantosamente e o interesse verdadeiro passa a ser elevar a humanidade, pois a essência da alma sabe que forma uma unidade com tudo o que existe. Aqui, o iniciado não é mais uma alma aprisionada, mas sim a própria alma. 
5º: É a revelação e ocorre no plano átmico. A vontade de servir, assume fundamental importância. A pessoa toma total consciência dos papéis desempenhados na evolução da Terra e do universo. Aqui a pessoa entra em pleno contacto com o seu poder pessoal, com o amor, e a luz. 
6º: Esta é a "iniciação da ascensão"; que se inicia agora e completa-se na 7.ª iniciação. Aqui a pessoa sente-se numa total unidade, vivenciando o amor incondicional divino e uma profunda paz. É necessário invocar e ser a Luz e o Amor.
7º: A partir daqui, não somos mais atraídos pelos mundos inferiores a não ser pela vontade de servir. Neste plano, a vontade espiritual se encontra plenamente ativada, entrando em pleno funcionamento ao lado do amor incondicional e da sabedoria. Neste estágio o amor incondicional, as motivações puras e o brilho da própria luz, reluzem na aura do iniciado.

Exemplo de coreografia solo:
Vermelho - Marte - Chacra Básico: sua retirada significa a vitória do amor cósmico e da confiança sobre a agressividade e a paixão. Entra-se com o véu vermelho (medindo 3 metros), movimentos fortes de véu e quadris, como batidas e shimies.
Laranja - Júpiter - Chacra Esplênico: dissolve o impulso dominador e dá vazão ao sentimento de proteção e ajuda ao próximo. O véu preso no quadril. Movimentos de shimies, oitos, redondos; o véu acompanha com movimentos do quadril.
Amarelo - Sol - Chacra Plexo Solar: elimina o orgulho e a vaidade excessiva, trazendo confiança, esperança e alegria. O véu cobrindo a barriga. Movimentos de ondulações, oitos laterais, oitos com ondulações, redondo interno e redondo grande.
Verde - Mercúrio - Chacra Cardíaco: mostra a divisão e a indecisão sendo vencidas pelo equilíbrio entre os opostos. O véu no busto ou em um dos braços. Movimentos de busto e braços.
Azul - Vênus - Chacra Laríngeo: revela que a dificuldade de expressão foi superada, em prol do bom relacionamento com os entes queridos. O véu no pescoço ou no outro braço preso a um bracelete. Véus verde e azul juntos com movimentos de cabeça.
Lilás - Saturno - Chacra Frontal: mostra a dissolução do excesso de rigor e seriedade, a conquista da consciência plena e o desenvolvimento da percepção sutil. O véu cobre o rosto (chador). Expressão de olhos e cabeça. Tira-se o chador.
Branco ou Prateado (união de todas as cores) - Lua - Chacra Coronário: mostra a imaginação transformada em pensamento criativo e pureza interior. O véu branco na cabeça (como véu dos beduínos). Retira-se o véu, utilizando-o com movimentos de giros e de casulo.
Durante a dança a bailarina realiza movimentos de meditação e de transe. A retirada de cada um dos véus, presos ao corpo da dançarina, representa a dissolução dos aspectos mais nefastos e a exaltação das qualidades pessoais. 


Os véus são retirados lentamente durante os movimentos. Retiram-se alguns véus, e outros são usados para se realizarem movimentos mais complexos. Duração da música: 07 (sete) minutos, sendo 01 (um) minuto para cada véu. Escolhe-se uma música que possibilite muitas variações de movimentos. Por baixo dos véus, usa-se preferencialmente roupa branca, de modelo à escolha da bailarina. Muitas bailarinas perfumam seus véus com aromas femininos e delicados. O perfume propicia um halo de mistério em torno de quem dança! Experimente e veja como a platéia se envolve com seus movimentos! A bailarina também pode assumir uma personagem: a sacerdotisa em busca da sua verdade. O despertar de sua consciência, de sua força e poder, dentro do mais perfeito equilíbrio.
Exercício de criatividade: Para cada minuto na sua Dança dos Sete Véus, associe uma nota musical, um planeta, um dia da semana... um passo de dança, um ritmo... Essa brincadeira estimula sua inteligência emocional e incentiva os sentidos da artista como um todo.

“A dança dos sete véus tem sido considerada como parte das tradições do Oriente Médio, mas não é praticada no Oriente. Foi uma criação da fantasia europeia e tem sido preservada pela industria do entretenimento.” 
Dance of Seven Veils, Shira

Shira escreve um longo artigo sobre a história da Dança dos Sete Véus, acredito que ela foi uma das primeiras bailarinas americanas a desmascarar a fantasia relacionada ao estilo. 
O artigo dela foi de extrema importância na época, porque até os anos 90, os sete véus eram ensinados como parte da tradição oriental. Mas, mais interessante é que ela considera a dança como parte do processo de criação artística ocidental estimulante para a criatividade da bailarina como intérprete.
Assim como Shira eu acredito que a bailarina tem a capacidade transformar algo  deturpado em  sublime. Isso é a função do artista não é!?
Acredito que no Ocidente a dança dos sete véus é um ícone que envolve todo o imaginário e a curiosidade sobre o Oriente.
A figura sedutora de uma mulher coberta por véus esvoaçantes atordoou a fantasia de muitos durante todo o século XX e até pouco tempo atrás era sinônimo de dança do ventre. 
Ao classificarmos como um mito orientalista (fantasia ocidental a respeito do oriente) não podemos desqualificá-la como menor em relação as demais,  a fantasia deu vazão para algo muito bonito e que inquieta nosso imaginário de tão sensual e misteriosa que é. Temos que considerar também os aspectos terapêuticos que foram estudados a partir deste estilo. Entre sagrado e profano a fantasia se transforma em mito, adequado ao nosso contexto cultural.
Eu, particularmente, não gosto muito de algumas coreografias, tenho a sensação de que a bailarina se parece com uma banquinha de retalhos ambulante e estruturei tamanhos aos véus justamente para evitar essa impressão.

Sete Véus: 
3 véus de 2mX1,20m 
2 véus de 1,20X1m
2 veus de 70cmX50cm
Assim os três maiores ficam presos pelos seus dedos e você pode brincar com eles durante um tempo. Os dois menores ficam presos ou como parte da saia ou como uma túnica transparente (sem aparecer os nós) e os menores amarrados como lenços ao redor da cintura. (Preciso desenhar isso para ficar mais claro, farei assim que estiver em terra firme!)

Fonte:
http://tatimgm.blogspot.com.br/2012/10/danca-dos-7-veus.html
http://www.seteveus.com.br/escola.htm
http://zahrali.tumblr.com/

sábado, 17 de janeiro de 2015

O Véu e a Dança do Ventre - parte 3 (arquétipo de Salomé)

"Para viver uma vida criativa, precisamos perder o medo de estar errados."
Joseph C. Pearce

"Fui e ainda sou um buscador, porém, deixei de interrogar estrelas e livros.
Comecei a ouvir os ensinamentos que o meu sangue sussurra para mim."
Herman Hesse
“Quem olha para fora sonha; quem olha para dentro acorda.”
C. G. Jung
“A análise deve liberar uma experiência que nos aprisiona ou nos advém de cima, uma experiência
que tem substância e corpo, tal como as coisas que ocorreram com os antigos.”
C. G. Jung
Mítica, glamourosa e proporcionalmente fantasiosa, a dança dos 7 véus é uma criação ocidental feita para hollywood.
Pesquisando as representações femininas cananeias, sumérias, assírias, babilônicas presentes em templos na Ásia Ocidental e nas pirâmides do Egito, observamos uso de pouca ou nenhuma roupa pelas sacerdotisas e Deusas. O que se contrapõe à influência greco-romana de longas vestes e uso de véus como ornamentos presentes na escultura que examinamos no primeiro artigo (Dançarina de Alexandria).
É comum ouvir professoras e alunas dizendo que a Dança dos 7 véus (em alguns casos são 9 ou mais véus), representa a abertura e harmonização dos chakras.
Vejam, dizer simplesmente que algo representa algo é muito fácil. Eu não duvido dos benefícios de qualquer prática corporal que alie movimento à significação, pois de fato os resultados podem ser surpreendentes. Mas daí a rotular uma dança que na verdade é uma interpretação moderna de uma história mal contata e mal documentada é um verdadeiro risco, tanto às mestras (que já foram alunas e por isso contam a história sem qualquer fundamento) quanto às alunas que se deixam levar por essas histórias sem analisar o que pode haver por trás delas. E as mesmas, inocentemente vão propagar as mesmas histórias, com um leve toque pessoal, sem pesquisar, sem questionar. Simplesmente aceitando e reproduzindo.
A ligação das cores dos véus com o chakras é uma invenção moderna. É necessário esclarecer que o estudo da cultura, filosofia e medicina oriental são primordiais para compreensão e discernimento de tais afirmações. Por exemplo, está claro para os indianos e chineses a realidade dos chakras (centros energéticos) e as ligações entre esses centros, os pontos magnéticos (meridianos) e suas relações diretas com os órgãos vitais do corpo. Por outro lado, deve ficar claro para o ocidental que os centros de energia denominados chakras estão localizados exatamente na posição das principais glândulas do nosso corpo e as mesmas tem fundamental influência no equilíbrio hormonal, na circulação sanguínea, no bom funcionamento dos nossos órgãos vitais e principalmente na manutenção do nosso sistema imunológico.
Compreendemos também que o sistema nervoso, vai além do cérebro e a partir da coluna vertebral irradia impulsos elétricos por todo o corpo. Qualquer desequilíbrio que atue em nível neurofisiológico compromete todo o corpo de maneira direta ou indireta. Já o mal funcionamento de um órgão vital ou uma glândula, também será refletido na parte neurológica e manifestará consequências em nível psicológico, como: alterações no humor; depressão; obsessão; compulsão; alta ansiedade entre outros sintomas.
O mesmo ocorre quando em nível psicológico trabalhamos conteúdos de forma indiscriminada causando prejuízos. Ao invés de cura temos a somatização.
O que percebemos ao pesquisar esse assunto, é que a percepção do movimento corporal, aliado ao uso de um “objeto cênico”, que prefiro chamar de “objeto inspirador” e, da profundidade dos significados pessoais podem levar à múltiplas possibilidades na interpretação artística. O correto direcionamento da experiência pode levar o indivíduo à cura física e harmonização dos conteúdos psíquicos.
Voltemos à Dança dos 7 véus, para descrever um exemplo bem específico. Rudolf Laban, criador da Dança Moderna, cita a construção cênica elaborada por uma bailarina. Esse texto data de aproximadamente 1958, e é continuamente utilizado por professoras de dança do ventre (sem citar a fonte original) como documento comprobatório para afirmar a veracidade da Dança dos 7 véus. Laban registra um breve relato da história de Salomé que consta nos Evangelhos de Mateus e Marcos. Em seguida, reproduz as anotações da aluna, cuja imaginação fértil criou sentenças que seriam pronunciadas pelos lábios de João batista após sua cabeça ter sido decapitada. O texto é bastante extenso, por esse motivo irei reproduzir apenas as sentenças que mencionam os 7 véus:
"Balança tua cabeça de lá para cá e bata em teu peito como fiz ao te ver pela primeira vez. Fica imóvel, incapaz de mover um membro sequer, tal como fiquei com meu crescente terror frente à vida. Lança fora o véu de meu rubor e pula; pula bem alto: tu não conseguirás escapar."
Vôa, fuja - se puderes - eu estou em toda parte. Tu estás te sentindo torturada e completamente enroscada: arrasta-te mais e mais perto de minha cabeça e despedaça-a completamente. Esse, o segundo véu é o véu de meu horror.
Erga, Salomé, o terceiro véu, o véu de meu orgulho quebrado.
Puxa-o, o quarto véu, o véu de minha ira e de meu ódio, Salomé.
O quinto véu é o véu da minha alma meditativa.
Chega mais perto, Salomé, mais perto de mim, mais perto ainda, e leva embora meu sexto véu, o véu de meu amor.
E agora, Salomé, erga o último véu, o sétimo, com cautela e suavidade, o véu de meu desespero, e enterra meus lábios mortos entre teus seios em botão."
Essa interpretação reproduzida por Laban opõe-se radicalmente às cenas do filme Hollywoodiano “Salomé”. Aliás, após ler o texto completo em questão e juntamente com algumas alunas rever o filme, as opiniões foram as mais variadas. São visões a respeito do que poderia ser um fato, mas que não há nada que possa comprovar a intenção da dança e a possível “culpa” ou “inocência” de Salomé ao realizá-la.
Na Bíblia há uma sutil diferença entre o relato de Mateus (14, 1-11) e o de Marcos (6,17-28), sendo que o de Marcos se assemelha mais à visão do filme demonstrando a possibilidade de Herodíades, a mãe de Salomé ter decidido por ela qual seria o prêmio pela bela apresentação. De qualquer forma os dois relatos dizem que a cabeça foi entregue à Salomé porque a mesma teria dito ao Rei Herodes a decisão da mãe.
Não há nada na Bíblia que comprove a interpretação do texto citado por Laban, ou seja, onde Salomé pareceria obcecada por João Batista a ponto de preferir sua cabeça numa bandeja à vê-lo vivo e inacessível a ela por conta da religião. Pelo contrário, a Bíblia é clara em afirmar que a divergência entre Herodes e João Batista era política e ideológica, pois esbarrava na expansão do cristianismo, nas revoltas do povo contra seu reino e na questão dele casar-se com Herodíades, sendo ela ex-esposa de seu irmão Herodes I, e essa foi a verdadeira causa de sua morte.
Outro fato importante é que a genealogia de Salomé aponta seu casamento com Filipe e, após a morte do marido, um novo casamento onde ela teria gerado 3 filhos. Portanto, nada que comprove a paixão pelo profeta.
Embora os pintores orientalistas dos séculos XVIII e XIX representem de forma diversa a história de Salomé, o único fator que poderia comprovar que sua dança é a “Dança Ancestral do Ventre”, não a dança que conhecemos hoje, mas sim a que se origina dos rituais em Templos na Antiga Mesopotâmia (e até mesmo anterior a este período) perpetuada pelos Egípcios como muitas das heranças dessas culturas, diz respeito aos rituais femininos de fertilidade e da dança como homenagem aos sacerdotes e iniciados.
Na Antiga Mesopotâmia havia uma Deusa chamada Belili (associada à Belit, Bélis e na Suméria, Inanna), irmã e esposa de Dumuzi Deuses anteriores à forma Babilônica Ishitar e Tammuz. Ambos eram Deuses da vegetação e fertilidade e ambos habitavam o mundo subterrâneo.
Em todas as cidades da antiga Suméria se ergueram templos consagrados ao culto de Belili (Inanna) e de seu esposo Dumuzi. O rei de cada cidade personificava Dumuzi e a suma sacerdotisa personificava Belili (Inanna) na cerimônia anual de matrimônio com a qual se tentava garantir a prosperidade, a saúde e a concórdia.
Uma das versões do mito relata que Dumuzi era originalmente mortal até descer ao submundo e casar-se com Belili (Inanna). A partir disso Dumuzzi fica imortal e recebe a companhia da divindade Nigizzida (representada por uma serpente), vivendo e permanecendo no portal do céu.
O encontro de Dumuzi e Belili regulava as estações da natureza. Durante seis meses eles vinham à superfície trazendo calor e fertilidade. Nos seis meses restantes Belili retornava ao mundo subterrâneo e Dumuzi voltava ao portal do céu. No equinócio de outono, o início do novo ano para os Mesopotâmios, Dumuzi retornava à terra onde relacionava-se com sua esposa, trazendo novamente a fertilidade para animais e plantas.
Mito Sumério, Inanna desce ao mundo subterrâneo e torna-se esposa de Dumuzi. Alguns relatos comparam o mito de Inanna ao de Astarte e Ishtar:
Analisando o mito, podemos refletir sobre a existência de 7 portais e seus significados ocultos. Por outro lado, não há nada que comprove a existência dos véus de diferentes cores ou que justifique a intenção de Salomé em dançar com o objetivo de matar João Batista pela frustração de não poder seduzir um homem “religioso e casto”.
Entramos aqui num ponto importante de reflexão: O que se esconde por trás dos véus? Qual a intenção em associar a sedução de uma mulher à morte de um homem religioso e casto?
Será a mesma intenção que associou a mulher à figura da “serpente mentirosa” e que propositadamente, fez Adão mortal, transformando Lilit num demônio e Eva em traidora, expulsando-os do paraíso no Mito Judaico-Cristão?
Ou será ainda a mesma que associou o uso do véu à ocultação do corpo da mulher nos rituais religiosos, sob a alegação de que a visão da mulher afasta o pensamento do homem de Deus?
Nos tempos primevos a ligação do homem com a divindade se dava através da mulher que representava a natureza em sua manifestação plena e simbolizava o mistério da vida.
A religião é um sistema político. As raízes etimológicas para a palavra religião são: re-ligare e re-legere que significam re-ligação ou re-conhecimento, re-leitura. Aceitando essa crença admitimos que o ser humano está à procura de algo que perdeu, assumindo a ligação espiritual como desfeita (ou mal-feita), o que impede que o conhecimento direto da divindade aliado à experiência espiritual de plenitude por algum motivo não podem ser compreendidas através dos 5 sentidos físicos e da inteligência. O papel da religião é, portanto, doutrinar e intermediar a relação entre o homem e a divindade.
Essa crença imposta à grande maioria das pessoas desde o nascimento, motivo pelo qual muitas delas desenvolverão problemas de baixa auto-estima e auto-imagem, além da falta de confiança em seu potencial artístico, criativo-sexual, são características atribuídas ao feminino arquetípico, que relegadas à discriminação, sujeitas à maledicência, à condenação ao inferno pelas ortodoxias religiosas, transformar-se-ão em frustrações em todas as áreas da vida dessas pessoas.
A Deusa Mãe de outrora é simbolizada hoje nas representações cristãs de Maria, onde ao ser mãe a mulher, deixa de ter sexualidade, perde a capacidade de sedução e de gerar por sua própria vontade. Ela passa a gerar apenas com a permissão de Deus, como se a vida só fosse uma benção se gerada por algo fora do corpo, ou seja, como se o corpo fosse impuro e desligado da alma.
Chega a ser irônico falar sobre “a célula máter da sociedade” e acreditar de fato que “a Grande Mãe”, tornou-se a escrava sexual do “Grande Pai”.
A sexualidade que foi outrora o maior mistério da criação e que representa a origem da vida humana, hoje é desvelada como mero processo do acaso, ou seja, de corpos que se encontram ocasionalmente, por acidente dispensam células e geram uma vida.
Por outro lado temos mulheres que não conseguem engravidar. E através da dança, da vontade, da persistência e amor por si mesmas, ultrapassaram as barreiras das crenças preconceituosas e da somatização das mesmas em seu corpo.
Essas mulheres sentem que o véu, não importando sua cor, tamanho ou textura é um veículo para a consciência da própria pele. Ampliam o sentido do tato compreendendo o poder do toque na cura e transformação internas. Abrem seus corações para a descoberta da identidade essencial.
O arquétipo que Salomé representa precisa ser urgentemente compreendido, pois enquanto houver a visão de que o corpo deve ficar separado da alma porque a alma é pura e pode ser aniquilada pela sedução do corpo, teremos cada dia mais homens e mulheres separados uns dos outros. Mulheres buscando seduzir, homens buscando sexo ocasional. Mulheres tentando engravidar e homens se sentindo impotentes diante de tal situação. Mas isso é assunto para um outro artigo.
Portanto, não há nada que possa comprovar que Salomé dançou com véus a não ser a existência do filme hollywoodiano. E a livre associação dos mitos de Inanna, Belili, Astarte e Ishtar, com a específica “dança dos sete véus”, se deve ao ato de vontade, liberdade e criatividade das bailarinas, coreógrafas(os) e diretores de arte.

Fonte: 
http://www.tribosdegaia.com.br/htm/artigos/liberia06.htm
http://www.tribosdegaia.com.br/htm/artigos/liberia07.htm

Referências Bibliográficas:
LABAN, Rudolf. Domínio do Movimento - Summus Editorial - 1978, pág. 246-255.
FUX, Maria. Dança, Experiência de Vida - Summus Editorial - 1983.
JOHNSON, Robert A. SHE - A Chave do Entendimento da Psicologia Feminina - Mercuryo, 1996.
LELOUP, Jean-Yves. O Corpo e seus Símbolos - Uma Antropologia Essencial - Editora Vozes, 2002.
MONTAGU, Ashley. Tocar: O Significado Humano da Pele - Summus Editorial - 1988.
PENNA, Lucy. Dance e Recrie o Mundo: A Força Criativa do Ventre - Summus Editorial - 1993.
COTTERELL, Arthur. Mitos e Lendas - Vol. I e II - Atlas do Extraordinário - Edições Del Prado – 1996 pág. 14, 15, 18,19, 65, 107,110
Bíblia Sagrada – Edições Loyola, São Paulo Brasil, 1989.